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Matéria publicada no Site: www.joiabr.com.br

Parte I

PÉROLA - ESFERA MÍSTICA
PARTE II

Márcia Pompei(*)





Especialista na arte da Simbologia, o homem explorou ao máximo esse elemento de beleza e mistério.

A pérola está inegavelmente ligada à lua, à água e à mulher. Nascida das águas, numa concha, representa o princípio Yin, a feminilidade criativa. A semelhança entre a pérola e o feto lhe confere propriedades genésicas e obstétricas. Desse triplo simbolismo (Lua - Água - Mulher) derivam suas propriedades mágicas, medicinais, ginecológicas.

Na Pérsia antiga, a pérola intacta era o símbolo da virgindade. O termo "furar a pérola da virgindade" está associado à consumação do matrimônio.

No Oriente é considerada afrodisíaca, fecundante, um talismã.

Na China e Índia é o símbolo da imortalidade, daí o fato de colocarem uma grande pérola na boca do morto, para regenerá-lo e inseri-lo num ritmo cósmico, cíclico, que, à imagem das fases da lua, pressupõe nascimento, vida, morte e renascimento. Outra ligação que se faz a esse antigo costume é o do óbolo oferecido ao barqueiro da morte Caronte, elementos da Mitologia.

Na Grécia antiga era sinônimo de amor e casamento. Símbolo também de Afrodite (Vênus) nascida da espuma do mar.

Escritos cristãos antigos retratam o Cristo como "a grande pérola que Maria carrega".

Os celtas associaram as pérolas à força vital e usavam-nas para energizar um recipiente, conhecido como Vasilha Mãe, que mais tarde foi chamado Cálice Sagrado, fonte da imortalidade.


Simbolismo forte também é o das pérolas enfiadas em um cordão. É o rosário, o Sutratma, a cadeia dos mundos, penetrados e unidos por Atma, o Espírito Universal. Assim, o colar de pérolas simboliza a unidade cósmica do múltiplo, a integração dos elementos dissociados de um ser na unidade da pessoa, o relacionamento espiritual de universo desequilibrado, da unidade rompida.

A pérola é pura e preciosa, porque é retirada de uma água lodosa, de uma concha grosseira, e surge tão bela, tão límpida. Há uma certa aura de magia que a cerca.

A origem mítica mais comum menciona conchas fecundadas através de temporais, pelo trovão, o dragão celestial, e sendo alimentadas pela luz da lua, gerando então a pérola.

No texto paleocristão "Physiologus" encontramos um trecho belíssimo que diz: "Há uma concha no mar que leva o nome de concha purpúrea. Ela emerge do fundo do mar . . . abre sua boca e bebe o orvalho do céu e o raio do sol, da lua e das estrelas, e por intermédio dessas luzes superiores produz a pérola... " As duas cascas da concha são comparadas ao Antigo e Novo Testamento, a pérola em seu interior é Jesus, o Salvador.

Textos antigos mencionam a presença de conchas próximas às margens do Mar Vermelho, todas com a "boca aberta", como que à espera de algo comestível. Durante uma tempestade furiosa, o raio penetra na concha, essa se assusta e fecha suas cascas. O raio em seu interior contorna seus globos oculares transformando-os em pérolas. Agonizantes as conchas morrem, mas as pérolas resplandecem em beleza às margens do Mar Vermelho.

São muitas as histórias, lendas, crenças e superstições a respeito dessa gema orgânica, sem dúvida a mais mística de todas.

O "Hino da Alma" atribuído ao gnóstico Bardesane, datado dos primeiros séculos da era Cristã, fala de uma criança que é enviada ao Egito para encontrar uma pérola escondida no fundo de um poço protegido por um dragão. A criança é o homem, sua caminhada em busca da pérola representa as peregrinações da vida. Após comer alimentos do lugar o menino se esquece de sua missão. Uma águia traz-lhe então uma carta relembrando-o - a carta é a doutrina da salvação que vai ajudá-lo a encontrar a pérola, a iluminação, a gnose.

Numa antologia medieval de novelas (Gesta Romanorum) há um texto que menciona uma jovem possuidora de uma pérola rara (livre arbítrio). Seus cinco irmãos (os sentidos) queriam trocar a pérola pelas alegrias dos sentidos, o que ela recusou. Quando surgiu o "rei", ela entregou-lhe a pérola e tornou-se sua esposa.

Já esteve associada às lágrimas, mas como símbolo da virtude que fortifica os espíritos vitais que nascem do coração. Há um dito muito conhecido por joalheiros da Europa oriental que diz: "As pérolas em que acreditamos nos trazem lágrimas prateadas como a lua, mas são lágrimas de alegria".

Passam os tempos, surgem novas e modernas tecnologias, o homem redescobre suas fronteiras intelectuais e, mesmo assim, a Pérola, em toda a sua beleza e misticismo, continua a intrigar e atrair...


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(*) Márcia Pompei - Designer de jóias e professora de joalheria e especializações
no Atelier Márcia Pompei

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