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Matéria publicada no Site: www.joiabr.com.br

PÉROLA - ESFERA MÍSTICA
PARTE I

Márcia Pompei(*)





Não se pode afirmar com exatidão o significado da palavra pérola. Pode vir de um tipo de molusco - do latim: perna, como eram chamadas as ostras do Mar Negro pelo historiador romano Plínio (o Velho); ou de sua forma esférica - do latim: sphaerula. No entanto, no que diz respeito à simbologia, o tênue fulgor de seu brilho acentua a natureza lunar e feminina, já sua forma esférica induz à idéia de perfeição, o homem esférico de Platão.

Calcula-se que o homem conheça a pérola há 12.000 anos. Como adorno estima-se que são utilizadas há 6.000 anos. É fácil imaginar povos habitando a orla marítima, alimentando-se de ostras e descobrindo no interior de várias delas uma esfera de brilho nacarado, em diferentes tamanhos, formas, cores, prontas para uso, sem a necessidade de serem lapidadas, polidas. Seu comércio na China já existia há 2.500 a.C., antes de tornarem-se tradição no Japão.

As peças de joalheria mais antigas encontradas datam do século IV a.C., Império Persa.

No Império Romano do século I a.C. eram a imagem da opulência, caras, embora abundantes. As mulheres de famílias abastadas forravam suas poltronas com pérolas e as costuravam em suas roupas.

O louco imperador Calígula condecorou seu cavalo com um belo colar de pérolas ao nomeá-lo cônsul. Nero agraciava seus atores favoritos com máscaras cravejadas de pérolas.

Recentemente podemos constatar que sua valorização e apreciação não perderam em nada visto que por volta de 1920 o famoso joalheiro Cartier adquiriu uma casa, um verdadeiro palacete, na 5a. Avenida em Nova York, avaliada em mais de 1 milhão de dólares, trocando-a por um colar de 2 voltas de pérolas naturais.

A maior pérola encontrada pesa 450 quilates (1.800 grãos), está no Museu de South Kensington em Londres.

Não é possível garantir a vida de uma pérola por um tempo determinado, estima-se que possa alcançar de 100 a 150 anos. Exemplares de várias centenas de anos mantém ainda boa aparência.

As pérolas perfeitas são muito raras e, por estarem ocultas no interior da concha, tornaram-se o símbolo do conhecimento velado e da sabedoria esotérica. São mencionadas ao longo de milênios na mística, na religião, na arte, folclore e literatura dos mais diferentes povos.

A cosmogonia dos Ahl-i Haqq, os Fiéis da Verdade no Irã, prega que no início não havia na Existência nenhuma criatura além da Verdade Suprema, única, viva e adorável. Ela morava na pérola onde ocultava sua essência. As ondas do mar a tudo guardavam.

Poemas épicos indianos como o Ramayana e Mahabarata contém interessantes lendas sobre pérolas: "após a criação do mundo os quatro elementos honraram o Criador, cada um com um presente. O Ar ofereceu-lhe um arco-íris; o Fogo uma estrela cadente; a Terra um precioso rubi e a Água uma pérola".

Na Índia acreditava-se que as pérolas nasciam na testa, cérebro e estômago dos elefantes (animais sagrados), também nas nuvens, conchas, peixes, serpentes, bambus e ostras. Sendo propriedade exclusiva dos deuses, as pérolas das nuvens irradiavam boa sorte. As pérolas das serpentes possuíam um halo azul e descendiam de Va'Suki, soberano das serpentes. Os mortais muito raramente viam essas pérolas: somente os de grande mérito gozavam de tal privilégio.

Na Malásia acreditava-se que elas nasciam nos coqueiros, enquanto que na China supunha-se que elas cresciam num peixe parecido com a enguia, ou no cérebro do dragão.

Lendas também falavam da pérola que crescia na cabeça do sapo. Shakespeare mencionaria essa crença milhares de anos após, em sua obra As You Like It: "Doce pode ser a adversidade da vida, que como o sapo, feio e peçonhento, na cabeça traz, todavia, uma jóia cingida".

Pequena bolinha que soube cativar tão intensamente povos de todos os cantos, todas as culturas, todos os tempos!


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(*) Márcia Pompei - Designer de jóias e professora de joalheria e especializações
no Atelier Márcia Pompei

Parte II

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