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Matéria publicada no Site: www.joiabr.com.br

MINERAÇÃO
OS MISTÉRIOS DO FUNDO DA TERRA



Márcia Pompei(*)




“Mundo de flores e salgueiros”,  karyukai, assim é chamada a sociedade das gueixas.


Quais mulheres de outras culturas poderiam comparar-se às gueixas*? Segundo a escritora e pesquisadora Liza Dalby, “há semelhanças entre elas e as kisaeng coreanas, ou as heteras da Grécia clássica, as femmes savantes francesas e as xiaoshu  da China imperial”, mas a gueixa é muito complexa e diversa, não se resume a uma simples comparação ou rótulo. Sem dúvida ela é considerada pelos próprios japoneses como “mais japonesa” do que qualquer outro grupo.

*Nota sobre a grafia: gueixa ou gueisha, as duas formas são consideradas corretas.

A tradução da palavra gueixa é artista. Foi usada a princípio para designar músicos e atores que se apresentavam em eventos. Como atividade artística sempre foi erroneamente associada à prostituição a gueixa também sentiu essa injustiça.

É comum associá-la à prostituição, no entanto a diversão ao lado de uma gueixa nem sempre resulta em sexo. Sua principal função está em criar uma atmosfera agradável num ambiente de reunião, de festa, um encontro que os clientes solicitam. Elas dançam, tocam, servem bebida, conversam sobre temas variados e importantes e acima de tudo: guardam um segredo como ninguém mais. As gueixas não se destinam a entreter apenas homens, elas podem fazê-lo com mulheres e mesmo crianças.

No Japão feudal, época de escasso refinamento cultural, falta de informação e contato com o mundo, as gueixas também eram vistas como educadoras; essa era uma de suas muitas missões sociais. Pais levavam seus filhos às casas de chá, acima de tudo para que tivessem contato com o refinamento, com a cultura. O sexo viria em segundo plano e não obrigatório.

A gueixa foi muito divulgada através da ópera de Puccini, Madame Butterfly, baseada em fatos reais.

Algumas podem ter um protetor – danna – que as manterá.

A convivência próxima entre gueixas e prostitutas fez surgir a necessidade de se definir quem era quem, por isso, em 1779 foram criados os kenban, cartórios destinados ao registro e fiscalização de gueixas. Diversas normas surgiram e lhes foram impostas como a obrigatoriedade do conhecimento das artes musicais, regras de etiqueta, maneira de falar, dança clássica, canto e  literatura, entre outros.

A aparência da gueixa também foi regulamentada, ela já não poderia usar quimonos muito chamativos, a discrição seria fundamental. As jóias de cabeça também deveriam seguir uma norma, não mais do que 3 kanzashis (palitos decorativos para cabelos) e apenas um pente de casco de tartaruga. O obi da gueixa deveria ser amarrado nas costas, o amarrado na frente seria usado pelas prostitutas, facilitando o ato de despir-se já que o faria diversas vezes ao dia.

---> Obi em chitão, seda chinesa, diamantes, ouro amarelo e branco. Peça finalista no JDI 2006 - International Jewelry Design Innovation Competition, concurso de jóias realizado em Hong Kong.

O período de 1860 foi considerado a época de ouro para as gueixas, que se vestiam no rigor da moda e ditavam tendências. Hoje, já em número bastante reduzido,  elas são “guardiãs” da tradição.

Sem dúvida a força cultural que as envolve é grandiosa, mas não se pode negar que seus adornos são fundamentais para “compor” a figura da gueixa. Elas têm enfeites específicos para épocas do ano, como no verão, onde usam adornos de cabelo leves e sutilmente brilhantes.

Seu rosto branco é resultado da aplicação de um pó chamado haku. Uma possível origem desse costume vem do cotidiano de mulheres que juntavam lenha e faziam carvão, próximo ao rio que caminha para Osaka. Para receber clientes particulares, precisavam empoar o rosto que estava sempre manchado e escuro.

Nos cabelos são usadas as peças de adorno mais importantes, os pentes, que normalmente são de casco de tartaruga, alfinetes que podem ser de coral, opalas ou outro elemento, os kanzashis (palito/jóia) e adornos metálicos que se movimentam e brilham ao contato com a luz. Podem ser vistas também flores em sua cabeça, como a ameixeira.

 

 

Curiosos enfeites podem ser vistos também na cabeça, como arroz com casca e a figura de uma pomba de massa, sem olhos. Essa pomba tem um significado especial. Um homem pode pedir para desenhar os olhos na pomba, esse é um sinal de que a deseja como amante naquela noite.

A roupa é composta pelo quimono de cauda, sempre estampado, bordado e colorido porém discreto, e o obi na cintura. Ela costuma demorar horas para se arrumar e sempre com a ajuda de alguém. A pose de segurar a barra do quimono com a mão esquerda é típico de uma gueixa. Os tamancos costumam ser altos (12 a 20cm) e a área que tocam o chão corresponde à metade do comprimento dos pés, mas nem isso abala seus movimentos suaves e delicados.

Apesar da aparência frágil e delicada, a gueixa é antes de tudo uma mulher forte e determinada. Ao longo de décadas, vem enfrentando as mais variadas diversidades, porém sem perder o apreço pela tradição, pela cultura de seu país. Sem dúvida ela foi diretamente responsável por diversas mudanças no Japão, mas isso é tema para muitas matérias... Ficamos por aqui.  

Bibliografia

Gueixa
Liza Dalby - Editora Objetiva 

www.culturajaponesa.com.br
autora: Cristiane A. Sato


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(*) Márcia Pompei - Designer de jóias e professora de joalheria e especializações
no Atelier Márcia Pompei
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